7 de agosto de 2011

Essência

Existe alguém consumindo muito do meu tempo na alegria de ser feliz. Esse alguém chama-se Essência.

2 de agosto de 2011

Olhos Prateados

Velocidade não é quebrar rotina. Estou a 200 quilômetros por hora o tempo todo, não tenho tempo programado para colocar os pés para cima, deixar o sangue quente do rosto esfriar-se ou para descansar os braços depois de um longo dia de trabalho.
Contrato, contabilizo, carrego, toda uma infinidade de "cês"e, principalmente, canso-me. Ao meu redor existe muitos "sim" e poucos "não". Diversão é abraçar os problemas do mundo e tentar - em vão - resolvê-los.
Dentro do carro o som estava ligado no máximo. A letra da música que invadia meus ouvidos fazia com que nenhum outro pensamento me perseguisse. Do lado exterior, os outros carros passavam rápido demais e as árvores assemelhavam-se a um único borrão. Somente sentia o serpentear do automóvel perante os obstáculos. Queria estar logo em casa.
Subitamente, todos à minha frente desaceleraram. Estavam todos apreensivos perante os Olhos Prateados que nos filmavam e aproximavam-se com o decorrer dos segundos. Diminuí o volume. Neste instante, andávamos todos enfileirados, muitos passavam a mão no rosto na tentativa de compreender o porquê daqueles Olhos naquele lugar em plena luz do dia. Não havia como fugir: ou obedecíamos ou estávamos todos encrencados. Não havia perdão naqueles Olhos Prateados, não havia outra chance, não havia escapatória.
Como que contando os segundos para deixar aquela criatura para trás e sem saber se sairia ileso daquela situação, relembrei momentos os quais estavam perdidos no porão da minha mente. A sensação que tinha é de estar nos minutos terminais de minha vida e não adiantava mais lutar contra o tempo, bastava refletir.
Lembrei meu primeiro tombo de bicicleta, meu primeiro dia de aula, minha primeira e única nota baixa, minha primeira ressaca, meu primeiro beijo, meu primeiro trabalho... Memórias deliciosas e quase esquecidas pelo simples fato de não haver tempo para recordá-las.
Enquanto o doce sabor de cada pensamento invadia-me, fui levado junto com os demais para estar frente a frente com os Olhos. Para minha surpresa, não estava preocupado em saber se seria prejudicado ou não, se seria atacado ou ignorado. Para mim tanto fazia. O que, realmente, importava era o fato de sentir-me como em um túnel do tempo.
Os segundos que passei para livrar-me dos Olhos Prateados intactos pareceram-me uma eternidade de lembranças, saudades, sonhos, expectativas e desejos. Pensei aonde chegaria com tanto esforço no trabalho, com tanta velocidade nas ruas, tanta pressa para não me atrasar e aonde não chegaria sem descansar, sem sentir uma canção (sentir está distante de ouvir, esse último fazia sempre dentro do carro ao voltar do trabalho), sem ter um tempo livre para organizar ideias, para estar com a família, para estar na minha presença e de bom-humor comigo mesmo.
Quando menos esperava, os olhos prateados que tanto nos assustaram já estava para trás. Todos voltaram aos seus ritmos normais com exceção de uma pessoa: eu. Preferi seguir minha viagem com destino ao meu lar (não mais minha casa) num ritmo calmo. Notei as pessoas e seus olhares, notei as árvores que passavam vagarosamente, inspirei fundo, vivi como nunca antes.
Ah se todos encontrassem em um Radar de Trânsito bons motivos para viver mais e correr menos.
Desacelerar.